Além das mudanças climáticas: secas sempre foram parte do clima do Nordeste brasileiro
21/01/26

Instituto Chico Mendes/Divulgação
Nos últimos anos, o mundo todo vem presenciando um cenário em que as mudanças climáticas se mostram cada vez mais indiscutíveis e implacáveis. Além de ser cada vez mais comum registros de recordes de temperaturas, vemos também catástrofes ambientais extremas em vários continentes, incluindo chuvas torrenciais mais devastadoras, enchentes, derretimento de geleiras, aumento no nível dos mares, e períodos de secas intensas — sem mencionar os problemas enfrentados pelos animais de diferentes regiões.
Sendo o Brasil um país de proporções continentais, e um dos maiores do mundo, é claro que, em sua variedade de biomas, essas mudanças climáticas sejam sentidas de diferentes formas. Em 2024, o Rio Grande do Sul sofreu grandes danos em parte de seu território, depois que chuvas intensas levaram o Guaíba a atingir o maior nível de sua história até então, chegando a 4,77 metros. As inundações afetaram cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios, além de 183 mortes e prejuízos bilionários, sendo assim considerado o maior desastre natural da história do Rio Grande do Sul.
Já no norte e nordeste do país, foram registrados problemas bastante diferentes: períodos de estiagem e de muitas secas, que agravaram ainda mais a sensação de calor, além de diminuírem os níveis de água de reservatórios e rios. Inclusive, foi por conta disso que algumas descobertas arqueológicas bastante relevantes foram feitas no Amazonas.
No entanto, embora muitos possam pensar que esses períodos de estiagem sejam associados principalmente às mudanças climáticas — o que é indiscutível, e de fato explica o agravamento dos últimos anos —, segundo registros de cavernas do Rio Grande do Norte, datados de até 26 mil anos atrás, eventos extremos de seca sempre estiveram presentes no Nordeste brasileiro.
Para explicar mais sobre isso e sobre os estudos realizados na região, a pesquisadora Giselle Utida, bióloga e pós-doutoranda no Departamento de Geofísica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), explicou ao Aventuras na História como a história geológica pode ajudar a compreender os riscos de um futuro ainda mais árido para o Nordeste.
O que o estudo de registros paleoclimáticos, como as estalagmites do Rio Grande do Norte, revela sobre a história das secas no Nordeste e por que olhar para esse passado profundo é fundamental para entender os desafios climáticos atuais da região?
Eventos extremos de seca e de chuvas estão presentes na história da Terra naturalmente e olhar para o passado nos ensina quando esses eventos ocorrem e em quais condições. Sabemos que existem fatores naturais que desencadeiam esses eventos climáticos, como a seca ocorrida há 4.200 anos causados pela variação da insolação por mudanças no ciclo de precessão da Terra. Esses estudos do passado nos ajudam a encontrar padrões que podem ser comparados com o clima atual e predizer possíveis cenários que possam se desencadear a partir das condições atuais, como as da atmosfera e do oceano, por exemplo.
Eventos como a estiagem de 4.200 anos atrás e o Heinrich Stadial 1 aparecem como marcos de instabilidade climática. O que eles ajudam a entender sobre a formação da Caatinga e do regime de chuvas atual?
O evento de 4.200 anos atrás (evento 4.2) foi um evento de variação climática extrema para condições de seca, enquanto o Heinrich Stadial 1 (HS1) teve aumento das condições de umidade. Ambos mostram que a vegetação responde a essas variações de forma rápida, na escala de poucas centenas de anos. Durante o HS1, alguns trabalhos mostram a expansão da floresta de Araucárias para região norte e nordeste do Brasil (Pinaya et al., 2019), enquanto no evento 4.2 mostrou que a vegetação de Caatinga passou a se estabelecer após a redução das chuvas. O estudo do evento 4.2 indica que houve variação não apenas das quantidades de chuva na região Nordeste, mas que a distribuição delas ao longo do ano foi crucial para que houvesse essa mudança de vegetação, ou seja, houve mudança também na sazonalidade das chuvas. Isso é um indicador de que se houver mudanças das quantidades e distribuição das chuvas atuais, haverá consequências na sobrevivência da vegetação presente hoje. Essas mudanças causam grandes impactos na ecologia de cada área e pode levar a grandes impactos ambientais.
Ao comparar as secas do passado remoto com as estiagens recentes, quais são as principais diferenças em termos de intensidade e duração?
A tendência dos estudos paleoclimáticos nos últimos 3.000 anos nos mostram que a tendência de secas tem se intensificado. Nos últimos 500 anos houve uma melhora das condições em relação aos 500 anos anteriores, no entanto, os eventos de seca e chuva se tornaram mais intensos. Quanto a duração desses eventos ainda é o desafio no qual estamos trabalhando com uma nova área de pesquisa no Nordeste na região de Uauá, que em 2023 foi considerada uma das primeiras áreas áridas do Brasil.
De que maneira fatores humanos — como aquecimento global, desmatamento e uso do solo — estão alterando um sistema climático que, historicamente, já era marcado por extremos?
O nosso Planeta funciona a partir do equilíbrio entre os sistemas. A interação entre a atmosfera e o oceano é o principal controlador do clima, tanto no passado, quanto no presente. Quando interferimos nessa interação, com o aumento da emissão de CO2, por exemplo, que mantém trocas gasosas entre a atmosfera e o oceano, alteramos a dinâmica entre eles, o que faz com que haja a busca por um reequilíbrio. Durante esse processo podem acontecer mudanças não desejadas para as sociedades, como intensificação de ventos, aumento ou diminuição de chuvas, que causam problemas nas nossas vidas como temos visto quase diariamente. Os eventos do passado também são reflexos dessa busca por equilíbrio, no entanto, por causas naturais.
Como os dados paleoclimáticos podem ajudar a calibrar modelos climáticos e melhorar a previsão de riscos futuros para o semiárido nordestino?
Os dados paleoclimáticos oferecem informações para testar os modelos climáticos, ou seja, se um modelo funciona adequadamente, ele deve nos entregar o resultado semelhante ao que descrevemos para o passado. Quanto melhor o modelo, melhor ele irá prever as possíveis condições para um futuro. As avaliações dos modelos não dependem apenas de dados locais ou regionais, mas também de dados globais, já que o Planeta não funciona por compartimentos. Dessa forma, melhores previsões para o semiárido nordestino poderão ser produzidas a partir da melhora dos modelos climáticos.
Os registros geológicos indicam impactos ambientais profundos no passado, como erosão e perda de cobertura vegetal. Que lições esses episódios oferecem para a conservação de biomas hoje ameaçados, como o Cerrado e a Amazônia?
Esses impactos foram o resultado de mudanças na dinâmica climática de forma natural. A ação antropogênica interfere na dinâmica natural de forma muito mais rápida, o que leva a respostas também de forma acelerada, o que pode levar a perda desses Biomas a ponto de não poderem ser restaurados.
Quando observamos, nos registros paleoclimáticos, que mudanças relativamente rápidas no clima já foram suficientes para alterar biomas, solos e paisagens no passado, o que isso nos ensina sobre os riscos de ultrapassar certos limites climáticos no presente?
O termo que tem sido muito utilizado é “ponto de não retorno”, o que significa que a partir de determinada mudança, seja ela o colapso de um Bioma ou o derretimento das calotas polares, não há como restaurar o meio para as condições encontradas anteriormente. Esse é o maior risco e o que mais preocupa os cientistas. A busca pelo reequilíbrio do Planeta diante dessas condições podem levar a mudanças abruptas e irreversíveis, como a história paleoclimática nos conta.
