Análises em poços do RS revelam riscos sanitários na água de consumo humano e animal
23/01/26

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Uma série de avaliações técnicas conduzidas em poços tubulares profundos nas bacias dos rios Taquari-Antas e Baixo Jacuí, áreas severamente afetadas pelas enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, indica um alerta sobre a segurança da água consumida por famílias rurais. Os relatórios, que integram o programa Recupera Rural RS, foram elaborados pela Embrapa após coleta de dados e amostras, em parceria com a Emater/RS-ASCAR em outubro de 2025, em 17 municípios: Bom Retiro do Sul, Cruzeiro do Sul, Carlos Barbosa, Imigrante, Arroio do Meio, Colinas, Estrela, Santa Clara do Sul, Marques de Souza, Travesseiro, Nova Bréscia, Dois Lajeados, Guaporé, Encantado, Muçum, Roca Sales e Santa Tereza.
Os relatórios, elaborados a partir de análise de indicadores técnicos de potabilidade e da presença de agentes biológicos causadores de doenças em águas subterrâneas, apontam contaminações microbiológicas e químicas que exigem medidas de tratamento. As análises laboratoriais utilizaram métodos avançados de biologia molecular (qPCR) para identificar o DNA de microrganismos potencialmente patogênicos.
Os principais pontos de atenção destacados pelos especialistas que atuaram nas análises foram contaminação por Salmonella spp, presença de Toxoplasma gondii, cepa perigosa de Escherichia coli (E. coli) e excesso de fluoreto e nitrato. Porém, os especialistas reforçam que essa identificação ocorreu em apenas alguns poços e as amostras de água subterrânea foram coletadas antes do sistema de cloração, presente na maioria dos poços amostrados. “Isso significa que muitos desses organismos potencialmente patogênicos já são eliminados quando em contato com o cloro inserido no sistema”, destacou o pesquisador Alexandre Matthiensen, da Embrapa Suínos e Aves, que conduziu o trabalho.
Orientações e Recomendações - Com os resultados, um relatório para cada poço onde ocorreu a coleta foi entregue para a Emater, a qual fará um trabalho junto aos produtores para informar e orientar os resultados e as medidas que devem ser tomadas. De acordo com o pesquisador da Embrapa, considerando que as amostras foram coletadas antes de sistemas de cloração, as principais recomendações resolvem o problema. Entre as recomendações feitas está a cloração e fervura da água, além de um trabalho de vigilância sanitária e proteção de poços. “A equipe do programa Recupera Rural RS continuará monitorando a qualidade das águas subterrâneas para garantir que as comunidades possam restabelecer suas atividades produtivas e o consumo doméstico com segurança”, informou ele.
Base técnica - Os padrões de potabilidade e as diretrizes de qualidade da água analisada pelos técnicos e pesquisadores envolvidos no trabalho levaram em consideração principalmente duas legislações:
• Portaria GM/MS Nº 888, de 4 de maio de 2021: esta norma do Ministério da Saúde altera o Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/GM/MS e estabelece os procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano, definindo o seu padrão de potabilidade.
• Resolução CONAMA Nº 396, de 3 de abril de 2008: dispõe sobre a classificação e as diretrizes ambientais para o enquadramento das águas subterrâneas.
O pesquisador Alexandre destaca uma distinção importante entre esses documentos. “Enquanto a Portaria GM/MS 888/2021 define padrões de uso para o consumo humano, a Resolução CONAMA 396/2008 é um documento de cunho ambiental, que estabelece padrões de enquadramento baseados nos usos previstos para o aquífero, porém a prerrogativa de definir padrões de qualidade para o uso final (consumo) cabe aos órgãos que regulam esses usos específicos”, explica ele.
Para a elaboração dos relatórios e fins comparativos, os Valores Máximos Permitidos (VMP) utilizados nas tabelas de resultados físico-químicos e microbiológicos fundamentam-se em ambas as normas citadas. Além disso, em relação à dessedentação animal os relatórios citam literatura técnica complementar para embasar os critérios de potabilidade para este fim.
Esta ação de coleta e análise das águas faz parte das atividades da Plataforma Colaborativa Recupera Rural RS, que reúne esforços de diversas instituições no combate às mudanças climáticas.
