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Cientistas da UFRN transformam sabugo de milho em tecnologia de ponta para tratar água contaminada

28/07/25

Cientistas da UFRN transformam sabugo de milho em tecnologia de ponta para tratar água contaminada

Cícero Oliveira

Um material que antes era visto como resíduo agrícola de baixo valor agora desponta como protagonista no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) encontraram no sabugo do milho uma poderosa alternativa para o tratamento de águas contaminadas por petróleo, corantes industriais e outros poluentes orgânicos.

A partir da lignina presente nessa biomassa, o grupo desenvolveu um composto químico modificado, capaz de atuar com alta eficiência na purificação de efluentes industriais e domésticos.

Ao modificar quimicamente a lignina com cloreto de colina (popularmente conhecido como sal amarelo) e peróxido de hidrogênio (a famosa água oxigenada), os cientistas aumentaram significativamente a capacidade do material de adsorver compostos tóxicos. A estrutura obtida apresenta maior porosidade e área superficial, ampliando a afinidade com poluentes comuns em ambientes aquáticos impactados por atividades industriais.

A tecnologia é fruto do trabalho de Alcides de Oliveira Wanderley Neto, Dennys Correia da Silva, Carlos Eduardo de Araújo Padilha, Elano Costa Silva e Karen Biatriz Lima de Góis, todos vinculados à UFRN. A proposta envolve encapsular o composto em esferas de alginato de sódio, o que facilita seu manuseio, uso e remoção após o tratamento. Esse formato, além de prático, aumenta a eficácia na captura dos poluentes, segundo explica Elano Costa Silva, um dos integrantes da equipe e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da universidade.

“Esse sistema facilita o manuseio, melhora a eficiência na captura dos poluentes e simplifica sua remoção do meio após o tratamento. A tecnologia está atualmente em fase de validação laboratorial, com testes em diferentes tipos de efluentes e cenários simulados. O próximo passo envolve a escala piloto, com vistas à transferência para aplicação industrial e comercial”, aponta Elano.

Além da aplicação em áreas com vazamentos de petróleo, a inovação se mostra promissora para estações de tratamento de esgoto, laboratórios, hospitais, postos de combustíveis e oficinas mecânicas — locais que frequentemente lidam com efluentes tóxicos. A possibilidade de substituir o carvão ativado, material tradicional e mais caro utilizado nesse tipo de filtragem, amplia ainda mais o valor estratégico do composto.

“Testes demonstraram que as esferas de lignina modificadas apresentam maior eficiência na adsorção de contaminantes quando comparadas a materiais convencionais, como carvão ativado. Além disso, a cinética de remoção revelou elevada afinidade da lignina modificada pelos poluentes, destacando sua viabilidade para aplicações em grande escala”, detalha Alcides de Oliveira Wanderley Neto.

Outro diferencial é o custo reduzido da solução. Como o sabugo do milho é uma biomassa amplamente disponível no Brasil e frequentemente descartada, o uso desse resíduo traz vantagens econômicas e ambientais. Segundo Elano Costa Silva, isso permite que o composto seja adaptado para diferentes tipos de contaminantes, o que amplia o leque de aplicações industriais e domésticas com um simples ajuste na formulação.

A equipe de pesquisa também investe na versatilidade do material, explorando sua aplicação em indústrias têxteis, cosméticas, alimentícias e farmacêuticas, além de filtros de água domésticos. Essa adaptabilidade torna o invento particularmente útil no atual cenário de aumento da demanda por tecnologias de baixo impacto ambiental e alto desempenho técnico.

“As ações buscam aperfeiçoar e expandir sua aplicabilidade em escala industrial e doméstica, englobando um contexto de avaliação do desempenho do material com contaminantes emergentes, como medicamentos e pesticidas, bem como investigando a reutilização do material e os melhores métodos para regenerá-lo após o uso, o que aumenta a sustentabilidade do processo”, afirma Dennys Correia da Silva.

A intenção do grupo é clara: além de purificar a água de forma eficaz, o composto precisa ser reutilizável e viável comercialmente. Isso significa que, em determinadas condições, é possível até recuperar o petróleo absorvido pelo material, agregando valor e abrindo caminhos para processos circulares na gestão de resíduos.

Essa abordagem está profundamente alinhada aos princípios da economia circular, que prega o uso inteligente de resíduos para gerar novos produtos ou insumos, evitando desperdícios. O desenvolvimento também colabora com as metas ambientais de grandes empresas e governos, que buscam incorporar práticas de ESG (Ambiental, Social e Governança) em suas operações.

“Primordialmente, a trajetória científica e tecnológica do grupo de pesquisa é impactada. Para além disso, é um instrumento de valorização da pesquisa aplicada, conectando universidade e mercado, e uma ferramenta de fomento à inovação ao mostrar como é possível transformar conhecimento em soluções práticas. Outros pontos são que a patente é um caminho de promoção da visibilidade acadêmica, facilitando colaborações interinstitucionais e atraindo investimentos, e, por outro lado, contribui para a formação de profissionais empreendedores preparados para gerar impacto positivo na sociedade por meio da ciência”, conclui Dennys Correia.

Neste estágio do projeto, o foco está na validação laboratorial com diferentes tipos de contaminantes, visando a próxima etapa: os testes em escala piloto e, depois, a transferência de tecnologia para o mercado. Trata-se de uma solução com alto potencial comercial, aplicável em sistemas de filtragem de uso doméstico até grandes indústrias poluidoras.

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