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Com uma estação que transforma até 21 milhões de litros de esgoto por dia em água potável em uma capital desde 1968, reúso potável direto mostra como já dá para beber “a água da cidade”

05/01/26

Com uma estação que transforma até 21 milhões de litros de esgoto por dia em água potável em uma capital desde 1968, reúso potável direto mostra como já dá para beber “a água da cidade”

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Sistema pioneiro de reúso potável direto em Windhoek combina tratamento avançado, múltiplas barreiras e monitoramento contínuo para transformar efluente urbano em água própria para consumo, em escala diária, dentro de um modelo de abastecimento usado há décadas.

Windhoek, capital da Namíbia, opera há décadas um dos exemplos mais citados de reúso potável direto no mundo: uma planta que trata e transforma efluente doméstico em água própria para consumo humano e a devolve ao sistema de abastecimento.

A operadora do projeto, a Windhoek Goreangab Operating Company (WINGOC), informa que a unidade produz 21.000 metros cúbicos por dia de água potável, volume equivalente a 21 milhões de litros diários.

A própria história do sistema, porém, é anterior à planta atual: Windhoek colocou em funcionamento sua primeira instalação de reúso direto ainda em 1968, em um contexto de escassez e pressão sobre fontes locais de água.

O que significa transformar esgoto em água potável
Na prática, o que chama atenção nesse modelo não é apenas a escala, mas a rota que a água percorre.

Em vez de captar exclusivamente rios, reservatórios ou aquíferos, a cidade transformou o esgoto urbano tratado em uma fonte adicional de água potável, com tratamento avançado e controle de qualidade contínuo.

O caso de Windhoek é citado como o “primeiro e mais longo histórico” de reúso potável direto em uma capital, com a primeira planta entrando em operação em outubro de 1968.

O termo “reúso potável direto” se refere ao reaproveitamento em que o efluente, depois de passar por tratamento de alta complexidade, volta a compor a água distribuída para a população sem depender de um corpo d’água intermediário como lago ou rio para diluição e armazenamento.

Em Windhoek, a água produzida na planta é preparada para mistura com outras fontes potáveis e, depois disso, segue para a distribuição municipal.

Segundo a WINGOC, a etapa final inclui desinfecção e ajustes para que o produto possa ser incorporado ao abastecimento da cidade.

Escassez hídrica e a origem do projeto em Windhoek

A origem do projeto remonta ao cenário climático e geográfico: a Namíbia é descrita pela WINGOC como um dos países mais secos da África, e Windhoek convive historicamente com risco de falta d’água.

A página oficial de “história” do projeto relata que, ainda em 1968, a municipalidade decidiu construir a planta de reciclagem de esgoto de Goreangab e que a cidade se tornou a primeira do mundo a produzir água potável diretamente a partir de efluente municipal.

A mesma fonte afirma que, décadas depois, o “New Goreangab Reclamation Plant” foi concluído em 2002 com tecnologias mais recentes para ampliar e robustecer o sistema.

Tratamento avançado e múltiplas barreiras de segurança
O salto tecnológico do sistema aparece no desenho do tratamento, que é apresentado pela operadora como uma sequência de barreiras destinadas a reduzir riscos microbiológicos e químicos.

A descrição pública da WINGOC começa com uma etapa de mistura de água bruta e possível adição de carvão ativado em pó para remover compostos orgânicos dissolvidos; na prática recente, a empresa afirma que desde 2008 a planta utiliza como suprimento exclusivo o efluente secundário tratado vindo da estação de esgoto.

Em seguida, entra a pré-oxidação com ozônio e a adição de permanganato de potássio para precipitar manganês dissolvido, além do uso de cloreto férrico para coagulação e formação de microflocos.

Depois dessa preparação, a água passa por floculação lenta para aumentar o tamanho dos flocos e facilitar a separação, que ocorre por flotação por ar dissolvido.

Nessa técnica, bolhas microscópicas se aderem aos flocos, levando-os à superfície, onde a camada formada é removida periodicamente.

A água segue para filtração rápida por gravidade em filtros de dupla camada, com ajuste de pH e nova dosagem de permanganato para precipitação e remoção adicional de ferro e manganês.

Parte dos resíduos de lavagem desses filtros e do material removido na flotação é encaminhada para tratamento em outra unidade de efluentes, segundo a própria operadora.

Ozônio, carvão ativado e ultrafiltração por membranas
A etapa seguinte é novamente baseada em ozônio, descrito pela WINGOC como um oxidante e desinfetante forte, produzido no local e injetado na água filtrada para oxidar compostos orgânicos e atuar na desinfecção, incluindo a inativação de microrganismos.

A empresa afirma que, após a ozonização, a decomposição do ozônio remanescente é realizada com adição de peróxido de hidrogênio.

Na sequência, entram filtros de carvão ativado em duas abordagens: um estágio de carvão ativado biológico, em que microrganismos associados ao meio filtrante degradam compostos orgânicos biodegradáveis, e outro de adsorção em carvão ativado granular para reduzir orgânicos dissolvidos remanescentes e diminuir condições associadas à formação de subprodutos de desinfecção.

O “polimento” final do processo descrito pela operadora usa ultrafiltração por membranas para remover partículas suspensas, microrganismos e vírus que ainda possam estar presentes, com procedimentos de limpeza e esterilização periódicos.

A água resultante passa por desinfecção com cloro e por ajuste de pH para estabilização antes de ser encaminhada para mistura com outras fontes potáveis e, então, distribuída pela cidade.

A própria WINGOC afirma que essa cloração também serve como proteção durante o transporte na rede.

Monitoramento online e controle operacional contínuo
Além do tratamento, o projeto é apresentado como altamente orientado a controle operacional.

Um estudo de caso público da Water360 descreve o sistema como um processo de múltiplas barreiras com monitoramento online contínuo e informa que dados de instrumentos são atualizados com alta frequência para a sala de controle, com possibilidade de interromper a distribuição caso algum parâmetro saia do padrão estabelecido.

O mesmo material menciona que o processo completo de produção é tratado como uma jornada de aproximadamente 24 horas e que amostras também são coletadas diariamente para análises laboratoriais, como parte do acompanhamento rotineiro.

Escala diária e limites de comparação pública
Em termos de escala urbana, a WINGOC afirma que 21.000 metros cúbicos por dia de água potável são produzidos e que centenas de milhares de habitantes são atendidos pelo abastecimento.

Em textos institucionais sobre o projeto, a Veolia — grupo ligado à operação — também divulga a produção diária de 21.000 metros cúbicos e relaciona esse volume a uma parcela relevante das necessidades de água da área urbana.

O histórico de Windhoek também ajuda a explicar por que o tema costuma gerar curiosidade: a barreira cultural do “nojo” tende a ser o primeiro obstáculo quando a origem da água é o esgoto.

É justamente por isso que o caso costuma ser apresentado com ênfase em padrões, barreiras de tratamento e monitoramento, e não como uma “solução improvisada”.

Ainda assim, informações como custo por metro cúbico, consumo energético específico e métricas padronizadas de eficiência nem sempre aparecem de forma unificada nas páginas públicas consultadas, o que limita comparações diretas com outros modelos de abastecimento em diferentes países.

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