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Da operação corretiva à inteligência preditiva: quatro décadas de engenharia e inovação moldam o saneamento brasileiro

22/10/26

A evolução técnica e operacional do saneamento básico brasileiro nos últimos 40 anos reflete a própria transformação da engenharia nacional: de rotinas manuais e essencialmente reativas para sistemas inteligentes orientados por dados, automação e modelos preditivos. Essa linha do tempo guiou a “Evolução tecnológica e mercadológica do setor do saneamento ambiental brasileiro nos últimos 40 anos”, realizada nesta quarta-feira, 21 de outubro, na Sala Cantareira 3, durante o Encontro Técnico AESabesp e a Fenasan 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo.

Coordenada por Reynaldo Young Ribeiro e moderada pelo presidente da AESabesp, Agostinho Geraldes, a sessão resgatou a trajetória dos acontecimentos que foram acompanhados de perto pelos profissionais da AESabesp. Ao abrir os trabalhos, Geraldes conectou o resgate histórico ao lema da associação: “A proposta desta mesa é justamente revisitar o caminho percorrido para projetar o futuro, em total consonância com o tema central desta edição: AESabesp 40 anos: conectando pessoas, conhecimento e inovação pelo saneamento”.

O consultor e engenheiro Paulo Massato iniciou sua exposição celebrando o encontro entre gerações. “Fico muito contente de reencontrar os amigos aqui. Foram 40 anos que vivi e sobrevivemos porque sempre houve muita gente boa trabalhando”, destacou. Massato traçou um paralelo a partir do acervo histórico da antiga revista ERA e de sua continuidade pela revista Saneas, pontuando marcos editoriais de 1936, 1954, 1973 e 1986, ano de fundação da AESabesp, até 2026. “A escassez hídrica sempre foi o tema preponderante nas edições, alternando crises severas e a exigência contínua de novas intervenções de engenharia. Nos primórdios, era difícil obter dados confiáveis para os cálculos”, relembrou.

Massato recordou a conquista do patamar máximo de excelência no Prêmio Nacional da Qualidade em Saneamento (PNQS) da ABES, fundamentado nos critérios do Modelo de Excelência da Gestão (MEG), período marcado pela disseminação de transparência e práticas estruturantes na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Entre as iniciativas emblemáticas, citou programas como Tace, Pura, Central de Atendimento Telefônico, Global Sourcing, Se Liga na Rede e Água Legal.

Ao detalhar a complexidade do fornecimento em comunidades vulneráveis, o consultor frisou que os limites ultrapassam a engenharia sanitária. “O problema central muitas vezes não é de saneamento, é habitacional. Se houvesse habitação adequada e regularizada, a infraestrutura avançaria com muito mais fluidez. Enquanto isso não se resolve, o engenheiro precisa atuar com a dificuldade estrutural do subsolo”, apontou. Ele relembrou a figura do agente comunitário para superar barreiras sociais e atender mais de 6 milhões de cidadãos em ocupações informais.

Massato também enfatizou que grandes aglomerações urbanas exigem planejamento participativo e governança integrada de bacias, citando o histórico de adaptação do Sistema Cantareira e iniciativas industriais como o Projeto Aquapolo. “Sem gestão de demanda em grandes metrópoles, é impossível garantir o abastecimento, sobretudo frente aos impactos das mudanças climáticas. Tudo decorre de um acúmulo de conhecimento e os saltos evolutivos surgem de processos rigorosos de gestão”, concluiu.

Na sequência, a diretora de corporativa de Operação Integrada da Sabesp, Débora Pierini Longo, detalhou a transição metodológica vivenciada pela companhia. “Quatro décadas atrás a operação era estritamente manual e corretiva, sem ferramentas analíticas de gestão e com tecnologia limitada de dados. Ainda assim, a determinação em expandir a infraestrutura sempre conduziu os profissionais”, analisou.

Da operação corretiva à inteligência preditiva: quatro décadas de engenharia e inovação moldam o saneamento brasileiro

Débora explicou que o processo de modernização e o ciclo pós-desestatização consolidaram uma cultura voltada à manutenção preventiva e preditiva, fundamentada na integração em tempo real de ativos e dados operacionais, cujo ápice de engenharia se materializa em empreendimentos como o Projeto Integra Tietê. Após absorver os aprendizados da estiagem severa enfrentada entre 2014 e 2019 e estruturar 86 centros de controle locais, a companhia direcionou investimentos recordes entre 2020 e 2026 para a criação do COI (Centro de Operação Integrada).

“Precisamos olhar o futuro e definir onde queremos estar. O modelo de negócio contemporâneo exige decisões mais ágeis, assertivas e preditivas, amparadas em uma visão colaborativa”, explicou a diretora. Desenvolvido sob benchmarking internacional para se posicionar como o segundo mais avançado do mundo no setor, o centro supervisionará a cadeia completa. “Temos de olhar ‘do rio ao rio’, cobrindo toda a cadeia de valor. Isso gera alavancas diretas para aumentar a eficiência energética, combater perdas e otimizar a distribuição com o apoio dos projetos-piloto já em curso”, completou.

Ao retomar a palavra, Geraldes provocou os palestrantes sobre os desafios do saneamento para as próximas quatro décadas, em especial a relação entre urbanismo, tecnologia e resiliência climática.

Massato chamou a atenção para transformações demográficas profundas. “Nas próximas décadas, enfrentaremos uma dinâmica distinta: o decrescimento populacional em áreas centrais consolidadas e a estabilização demográfica geral. Em 2033 já teremos a universalização; portanto, o desafio central mudará para a prestação de serviços customizados e com padrão superior de qualidade para uma população mais envelhecida e predominantemente feminina”, projetou. O engenheiro pontuou ainda que as concessionárias deverão elevar a resiliência física das redes diante do aquecimento global.

Débora assegurou que o planejamento estruturado garante a entrega das metas. “Até 2029 a Sabesp terá implementado toda a infraestrutura contratual necessária para a universalização, e o COI será o pilar que sustentará a excelência da operação nesse período subsequente”, afirmou.

Encerrando a mesa, os especialistas debateram a capacitação do quadro funcional diante da inteligência de dados. Débora defendeu treinamentos contínuos para que os operadores dominem as novas ferramentas analíticas, enquanto Massato reforçou a perenidade dos princípios de governança: “O fundamental é a disciplina da gestão. A alta administração precisa estar consciente de seu papel e transferir o conhecimento indispensável aos processos, garantindo que a tecnologia sirva, em última instância, à qualidade de vida da população”, orientou.

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