Do volume ao valor: como a ANA mede a eficiência econômica do uso da água no país
22/10/26
Quanto de riqueza o país gera para cada metro cúbico de água que retira de rios, lagos e aquíferos? A resposta está no indicador ODS 6.4.1 (Alterações na Eficiência do Uso da Água), analisado em detalhes na 3ª edição da publicação ODS 6 no Brasil , da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Os dados mostram um país com diferenças entre setores e territórios e oscilações muitas vezes associadas à atividade econômica, com avanços de forma mais acentuada relacionados à agropecuária.
O indicador 6.4.1 faz parte da Meta 6.4 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, que propõe aumentar a eficiência do uso da água em todos os setores. Seu cálculo é feito pela razão entre o Valor Adicionado Bruto (VAB) de agropecuária, indústria e serviços e o volume de água doce retirado para usos consuntivos.
O VAB, que representa o valor gerado pelas atividades econômicas, tem como fonte o IBGE. Os volumes de retirada são da ANA. Os resultados são calculados a preços constantes (base 2015), em reais, e, em dólares, convertidos pela paridade de poder de compra, seguindo as diretrizes internacionais da ONU, para permitir comparar o Brasil com outros países. Um aumento do indicador expressa maior valor econômico gerado por unidade de água retirada, e depende tanto da evolução do VAB quanto das retiradas de água.
O retrato do país: oscilações e recuperação
Entre 2011 e 2022, a eficiência total da economia brasileira passou de R$ 83,64 para R$ 80,75 por metro cúbico (a preços de 2015). No período, houve queda e depois recuperação nos anos recentes. Na comparação com a Agenda 2030, o indicador subiu 3,0% de 2015 (R$ 78,4/m³) a 2022 (R$ 80,8/m³), com alta de 7,6% depois de 2019.
As causas das oscilações estão mais na economia do que na água. De acordo com a análise, a retirada de água ficou relativamente estável, enquanto o VAB variou bastante. As quedas de 2016 e 2020, sobretudo em indústria e serviços, coincidem com a recessão profunda de 2016 e com a pandemia de Covid-19. Quando a atividade econômica se recuperou, o indicador aumentou, mesmo sem mudança expressiva no volume de água retirado.
Essa dinâmica mostra a sensibilidade do indicador às flutuações da economia. O VAB é influenciado por fatores como juros, câmbio, produtividade, inovação e preços internacionais, que podem alterar o valor gerado sem mudanças correspondentes nas retiradas de água. É evidente que o uso racional do recurso hídrico, a saber, aquele que maximiza o benefício/produção associada no processo produtivo, pode levar também a um ganho de eficiência.
No entanto, o que se espera, é que mudanças dessa natureza promovam alterações menos circunstanciais e mais estruturais, muitas vezes percebidas em um prazo mais longo. Em dólares, o comportamento geral é semelhante: a eficiência total passou de US$ 23,5/m³ em 2015 para US$ 24,2/m³ em 2022.
Agropecuária: o maior avanço
A agropecuária é o setor de maior demanda consuntiva do país, com 39,5 bilhões de m³ retirados em 2022. É também o de menor valor adicionado por metro cúbico de água retirado. O VAB calculado foi de R$ 79,9 bilhões no ano (equivalente a R$ 40,3 bilhões a preços de 2015), o que resulta em eficiência de R$ 1,02/m³.
Foi o setor com maior crescimento de eficiência no período da Agenda 2030. De 2015 a 2022, a alta foi de 29,2%, de R$ 0,8 para R$ 1,0 por m³ (US$ 0,2 para US$ 0,3). Em relação a 2011, o aumento chega a 62,7%. Entre 2019 e 2022 houve leve contração de 5,6%.
A ANA ressalta que o menor valor adicionado por metro cúbico de água é inerente ao setor e não reduz a importância estratégica da agropecuária para a segurança alimentar, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.
Indústria e serviços
Os serviços têm historicamente a maior eficiência, ou seja, o maior valor do indicador: R$ 261,7/m³ em 2022, resultado do alto valor adicionado (acima de R$ 5,9 trilhões, ou R$ 4 trilhões a preços de 2015) e dos volumes de retirada relativamente baixos. A eficiência do setor subiu 3,0% entre 2015 e 2022, e as variações estão fortemente associadas ao comportamento do VAB.
Já a indústria apresenta nível intermediário: R$ 116,9/m³ em 2022, com VAB de R$ 2,2 trilhões (equivalente a R$ 1,1 trilhão a preços de 2015). O iahndicador cresceu 5,7% de 2015 a 2022. Entre 2014 e 2019, as retiradas de água caíram mais do que o valor adicionado, o que gerou ganho de eficiência. De 2020 a 2022, o VAB cresceu mais do que as retiradas, e o indicador voltou a aumentar. Alimentos e bebidas, papel e celulose, siderurgia e produtos químicos concentram a maior parte das retiradas industriais.
Um país de realidades distintas

O recorte regional mostra que a eficiência varia muito conforme a estrutura produtiva de cada território. A Região Sudeste tem os maiores valores em todo o período, oscilando entre 114 e 146 R$/m³, se estabelecendo em 129 R$/m³ em 2022. Dentro dela, Rio de Janeiro (cerca de 230 R$/m³ em 2022) e São Paulo (210 R$/m³) ficam sempre acima de 175 R$/m³ no período, enquanto Minas Gerais e Espírito Santo permanecem abaixo de 65 R$/m³ no período.
No Centro-Oeste, o contraste é explicado pela estrutura econômica de cada unidade da federação. O Distrito Federal apresenta valores acima de 450 R$/m³ em todo o período, dada sua economia baseada predominantemente em serviços, que combinam alto valor adicionado e baixo consumo de água. Já Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, fortemente voltados à agropecuária, permanecem sempre abaixo de 60 R$/m³.
A Região Sul também apresenta contrastes internos no período. O Paraná mantém valores superiores a 145 R$/m³, enquanto o Rio Grande do Sul fica abaixo de 35 R$/m³, resultado influenciado pelos altos volumes de água usados na agricultura. Santa Catarina ocupa posição intermediária, com valores entre 72 e 95 R$/m³.
No Nordeste, a Paraíba teve o maior indicador na maior parte do período, com pico de cerca de 108 R$/m³ em 2019, e Alagoas registrou aumento de 50% na série. A Bahia, por sua vez, tem os menores índices da região, atingindo 34 R$/m³ em 2022.
No Norte do país, o Amazonas apresenta os maiores valores, com pico de cerca de 134 R$/m³ em 2017 e mínimo de 79 R$/m³ em 2015. Rondônia e Tocantins ficaram abaixo de 35 R$/m³ em 2022.
O Brasil no mundo
Em 2021, a eficiência do Brasil medida pelo indicador 6.4.1 foi de US$ 22,9 por m³, cerca de 10% acima da média mundial (US$ 20,8 por m³). A média global subiu 19,3% entre 2015 e 2021, mas a avaliação da ANA é que esse ritmo ainda é insuficiente para assegurar o uso sustentável da água diante do crescimento econômico.
A comparação por setor mostra três cenários:
* Indústria: o Brasil (US$ 34,5/m³) está próximo da média global (US$ 37,2/m³). * Serviços: o país (US$ 75,6/m³) fica abaixo do patamar internacional (US$ 111/m³). * Agropecuária: o Brasil (US$ 0,3/m³) também está abaixo da média mundial (US$ 0,7/m³), o que, segundo o documento, indica potencial para investimentos na modernização dos sistemas de irrigação.
No mundo, a agropecuária teve o maior aumento percentual de eficiência do uso da água entre 2015 e 2021 (40%), refletindo melhorias em técnicas irrigadas, aumento de produtividade e mudanças estruturais. Ganhos expressivos foram observados na Ásia. A América Latina e o Caribe foram a única região com queda, de cerca de 7%.
Como interpretar os números
A publicação ressalta que mais eficiência no indicador não significa necessariamente melhor gestão da água. Uma valorização de uma commodity agrícola pode elevar o valor adicionado sem alterar o volume de água utilizado. Mudanças nos preços relativos podem levar à substituição de culturas, enquanto incentivos econômicos, fiscais ou regulatórios podem favorecer produtos que usam muita água.
Sob a lógica privada, observa o documento, não há necessariamente relação direta entre eficiência hídrica e rentabilidade. A busca por maior eficiência tende a ocorrer quando a ineficiência representa um custo adicional significativo, seja por restrição de acesso, aumento do custo da água ou exigências regulatórias.
O contexto hídrico também importa. Entre 2013 e 2020, o país enfrentou estiagens prolongadas, com episódios críticos no Sudeste e no Centro-Oeste, e a seca de 2021 foi uma das mais severas em quase um século. As regiões hidrográficas do Atlântico Nordeste Oriental (que inclui o Semiárido) e do Atlântico Sul apresentam estresse hídrico persistente. Para a ANA, a escassez pode induzir o uso mais eficiente da água, mas promover essa eficiência de forma antecipada é essencial para fortalecer a resiliência e a segurança hídrica.
Por isso, o indicador 6.4.1 deve ser analisado em conjunto com o indicador 6.4.2, que mede o nível de estresse hídrico. Embora o Brasil apresente um nível nacional confortável de estresse hídrico (2,3% em 2024), há diferenças regionais significativas, com níveis críticos em algumas regiões hidrográficas, como o Atlântico Nordeste Oriental (60%) e o São Francisco (30%). Em 2024, a retirada total para usos setoriais foi de 2.098,7 m³/s, e abastecimento urbano, agricultura irrigada e indústria de transformação respondem por cerca de 83% desse total.
Ampliar a gestão da demanda e incentivar tecnologias, práticas e arranjos institucionais que elevem a eficiência do uso da água, sem comprometer sua função social e ambiental, são passos essenciais para a segurança hídrica e o desenvolvimento sustentável.
Fonte: ODS 6 no Brasil – 3ª edição (ANA), indicador 6.4.1, com dados da ANA, do IBGE e da FAO.
