Fórum Desmedicar recebe público expressivo de usuários e de profissionais da Saúde Mental
07/10/26
O Dia Mundial da Saúde Mental é celebrado em 10 de outubro. Alusivo a esta data, foi realizado na manhã desta quarta-feira (7), no auditório do Sindipetro-NF, o primeiro Fórum Desmedicar. A plateia composta por usuários do serviço de Saúde Mental do SUS e por profissionais e estudantes da área participou com perguntas e relatos ao final da mesa de debates sobre o tema ‘A Luta Global contra a Medicalização da Vida’.
O Fórum Desmedicar foi realizado pelo grupo de mobilização social pela saúde mental e reabilitação psicossocial, Coletivo Ivone Lara, com o apoio da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Macaé e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF). Entre os convidados para a mesa estiveram o enfermeiro/psicanalista, pesquisador do Laps/Ensp-Fiocruz e diretor da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), Alexander Ramalho, e o doutorando da UFRJ e usuário da Rede de Atenção Psicossocial no Município do Rio de Janeiro (Raps), Edvaldo Nabuco.
“Vou fazer uma crítica à medicalização da vida, trazer alguns dados e falar sobre as práticas emancipatórias. Se toda tristeza for tratada com medicamento, o que sobrará da experiência humana? Experiências existenciais estão sendo transformadas em diagnósticos e, por consequência, em prescrições. Entretanto, em alguns momentos, pode haver a necessidade do remédio”, salientou Alexander Ramalho.
Também o doutorando da UFRJ e usuário da Rede de Atenção Psicossocial no Município do Rio de Janeiro (Raps), Edvaldo Nabuco, reforçou a crítica.
“Nas décadas de 1940 e 1950, houve um boom de remédios psiquiátricos e o surgimento do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSCM) 1 e 2. A partir daí, surgem também várias críticas a esta adoção excessiva de medicamentos e, especialmente, à teoria de que a loucura é causada por desequilíbrios químicos no cérebro. Esta teoria não foi comprovada e foi por muitas vezes refutada. Ela era usada pela indústria farmacêutica para justificar a indicação de medicamentos psiquiátricos”, explicou.
A Doutora em Enfermagem, professora e representante da UFRJ/Macaé, Gizele Martins, participou da mesa.
“Percebo o quanto as pessoas distorcem o que é este projeto de desmedicalizar a vida. Não é parar de tomar remédio, ou tirar a importância do médico. Mas sim uma garantia de experiência humana. Alguns sintomas não tornam uma pessoa disfuncional. São experiências humanas. Medicalizamos demais e oferecemos poucas oportunidades. As pessoas precisam ocupar os espaços que queiram, ter autonomia e direito de escolha. O remédio pode ser anestesia e gera dependência”, frisa a professora.
O debate foi mediado pelo musicoterapeuta e Mestre em Atenção Psicossocial pela UFRJ, Nelson Falcão. Ele advertiu sobre políticas públicas defensoras das unidades terapêuticas e as criticou, assim como os riscos de vício em bets (cassinos online) e, também, defendeu a ampliação de verbas destinadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).

“Trabalho no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD) e entendo o quanto as bets acabam com a vida das pessoas. O mecanismo que leva ao vício em substâncias psicoativas é o mesmo que leva ao vício em aposta”, destacou.
Já o terapeuta ocupacional da Raps Macaé e Rio das Ostras e doutorando do Eicos-UFRJ, Júlio Alves, relatou experiências de usuários acompanhados por ele.
“A partir da minha experiência em Macaé, percebo como podemos dialogar com os atendidos para aprimorar a nossa política e a nossa visão sobre o sofrimento psíquico”.
À mesa de debate também estiveram o usuário e conselheiro Municipal e Estadual de Saúde e diretor e fundador do Coletivo Ivone Lara, Carlos Henrique Martins, e o vice-presidente do Conselho de Saúde de Macaé (Comissão de Saúde Mental) e diretor do Sindipetro-NF Macaé, Denis Junior.
Carlos Henrique Martins ressaltou a eficácia da participação em oficinas em seu tratamento.
“Encontramos no acolhimento nos Caps o tratamento terapêutico com arte, cultura e leitura. Aprendemos respeito às diferenças (...) atualmente prefiro não usar medicação”, disse Carlos.
“Vamos participar da fiscalização dos Caps, recebendo a demanda de vocês, usuários. Precisamos de vocês para fortalecermos o SUS”, salientou Denis.
