Licitação bilionária da água em Rondônia gera denúncias de favorecimento à Aegea
22/07/26

Redação Pauta Diária
A publicação do edital para entregar à iniciativa privada os serviços de água e esgoto em 40 municípios de Rondônia, num contrato de R$ 8,4 bilhões, virou alvo de questionamentos. Sindicatos, lideranças políticas e sociedade civil desconfiam que a empresa Aegea Saneamento é a favorita para ganhar a licitação, o que levanta suspeitas de favorecimento.
As críticas não são só sobre o processo de privatização. Os sindicatos lembram o histórico da empresa em outras cidades, o impacto sobre os funcionários da Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (Caerd) e a possibilidade de um grande aumento nas contas de água para a população.
Valor do contrato: A licitação para água e esgoto em Rondônia é de R$ 8,4 bilhões, um dos maiores do setor no país.
Empresa favorita: A Aegea, que já foi investigada por corrupção, é apontada como a provável vencedora da concorrência.
Risco de tarifa cara: Estudos mostram que a conta de água pode quase dobrar em cidades como Ji-Paraná se a Aegea vencer.
Ligações políticas: O ex-senador Expedito Júnior, que trabalhou para a Aegea, é ligado ao prefeito de Cacoal, candidato ao governo de Rondônia.
Histórico de corrupção: Executivos da Aegea admitiram em delação que pagaram propina a políticos em seis estados, incluindo Rondônia.
Ligações políticas e influência
Outro ponto que chama a atenção é a proximidade de figuras políticas com a Aegea. O ex-senador Expedito Júnior, que, segundo relatos, atuou como articulador político da empresa, é apontado como coordenador do projeto político do prefeito de Cacoal, Adailton Fúria, que quer ser governador.
Também é citado o fato de a esposa de Expedito Júnior, Valdelise Martins dos Santos Ferreira, ter sido advogada de uma empresa ligada à Aegea em Rondônia. Isso não é crime, mas os críticos da privatização pedem mais transparência sobre essas relações.
Sindicatos alertam para aumento de tarifas
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Sindicato dos Urbanitários (Sindur) estão se mobilizando contra a privatização. Eles dizem que o modelo pode trazer problemas financeiros para a população.
O advogado Itamar Ferreira, ex-presidente da CUT, afirma que as experiências da Aegea em Manaus e Ariquemes são exemplos do que pode acontecer. Segundo ele, estudos mostram que a conta de água pode subir quase 100% em cidades como Ji-Paraná, o que preocupa consumidores e sindicatos.
Além disso, as entidades estão de olho nas negociações para garantir os direitos dos trabalhadores da Caerd.
Histórico de delações aumenta pressão
A Aegea voltou a ser notícia por causa de investigações nacionais. O site UOL mostrou que executivos da empresa fizeram um acordo de delação premiada, aprovado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2025.
Na delação, eles admitiram ter pago propina a agentes públicos em seis estados e cerca de 20 cidades entre 2010 e 2018. O esquema teria movimentado cerca de R$ 63 milhões. Um dos estados citados é Rondônia.
Ainda não há uma decisão final da Justiça sobre o caso, e as investigações continuam.
Assembleia abriu caminho para privatização
O modelo de concessão começou a ser montado em 2023, quando a Assembleia Legislativa aprovou um projeto do governador Marcos Rocha, que virou a Lei Complementar nº 1.200. Essa lei criou uma região para cuidar da água e do esgoto em Rondônia.
Na prática, a lei tirou da Caerd a gestão direta dos serviços, permitindo a concessão para a iniciativa privada. Outro fator importante foi a decisão do governo de assumir dívidas da companhia, de quase R$ 1 bilhão, para deixar os serviços mais atrativos para o mercado.
Nesta semana, os deputados estaduais também aprovaram um projeto para negociar dívidas antigas da Caerd, reduzindo os passivos antes da concessão. A proposta teve o apoio da maioria dos deputados do governo, com resistência de um grupo pequeno, liderado pelo deputado Rodrigo Camargo, que criticou a venda dos bens públicos.
Debate promete se intensificar
Com o lançamento do edital, a disputa pela concessão bilionária vai ganhar novos capítulos. O governo de Rondônia diz que a parceria com a iniciativa privada é necessária para levar saneamento básico a todos e cumprir as metas da lei. Já os sindicatos e a oposição pedem mais fiscalização, transparência e esclarecimentos sobre possíveis conflitos de interesse.
Esta reportagem está aberta para o governo de Rondônia, a Aegea Saneamento e os outros citados darem sua versão sobre os fatos.
