Lodo de esgoto aumenta em até 25% matéria orgânica do solo, aponta estudo
01/12/25

Rafael Santos/Unesp
O lodo de esgoto compostado (LEC) — fertilizante orgânico produzido a partir do reaproveitamento de resíduos do tratamento de esgoto e de outros materiais orgânicos — tem se tornado uma opção de adubo orgânico para plantações. Um relato desse benefício vem de São Manuel, interior de São Paulo.
Esses pontos foram justamente indicados em estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). A pesquisa aponta que a utilização desse fertilizante orgânico pode reduzir em até 50% o uso de fertilização mineral na produção de cana-de-açúcar.
O estudo, conduzido no campus de Ilha Solteira, testou o composto em solos tropicais de baixa fertilidade cultivados com cana-de-açúcar, em Suzanápolis (SP). O experimento, realizado em parceria com a empresa Tera Ambiental, durou dois anos agrícolas completos (2020/21 e 2021/22) e avaliou tanto o efeito direto quanto o residual do fertilizante.
Os resultados chamaram atenção: a aplicação de 5 toneladas por hectare de LEC combinada a 50% da adubação mineral tradicional apresentou o melhor desempenho, aumentando a matéria orgânica do solo em cerca de 25% e reduzindo a acidez entre 6% e 15%.
O uso do composto também melhorou a disponibilidade de nutrientes essenciais como fósforo, cálcio e magnésio, além de elevar os teores de micronutrientes, como zinco e cobre. “Esse estudo reforça o papel dos fertilizantes orgânicos compostos como uma alternativa viável para reduzir a dependência de fertilizantes minerais importados, diminuir custos de produção e, ao mesmo tempo, promover a economia circular”, afirmou Fernando Carvalho Oliveira, doutor em agronomia e responsável técnico pelos fertilizantes orgânicos compostos da Tera.
Conforme o estudo, o fósforo — um dos nutrientes mais caros e de maior dependência externa — permaneceu disponível no solo por mais tempo, garantindo nutrição prolongada às plantas. Já o cálcio e o magnésio também permaneceram em níveis elevados, o que ajudou a equilibrar o solo e favorecer o desenvolvimento das raízes.
O potássio, por sua vez, embora presente em menor quantidade no produto, teve ganhos de até 25% em alguns tratamentos. Isso ocorreu devido a maior capacidade do solo de reter nutrientes após o aumento da matéria orgânica. “Além de ser uma solução prática, este tipo de adubo contribui significativamente para a saúde do solo e a sustentabilidade do setor sucroenergético, mostrando que é possível aliar alta produtividade com responsabilidade ambiental”, aponta Oliveira.
Processo: do lodo ao adubo
O lodo de esgoto compostado, ou LEC, como é popularmente conhecido, é produzido a partir do reaproveitamento do material que sobra nas estações de tratamento de esgoto. Ao invés de ser descartado, esse resíduo passa por um processo controlado de compostagem, que o transforma em um fertilizante orgânico.
O primeiro passo é misturar o lodo com outros resíduos orgânicos, como restos de poda, palha e cavacos de madeira. Essa combinação ajuda a equilibrar a umidade e a proporção de carbono e nitrogênio, dois elementos essenciais para o processo de decomposição.
Em seguida, a mistura é colocada em leiras (montes de compostagem) e mantida em condições chamadas de aeróbias, ou seja, com presença de oxigênio. Durante esse período, a atividade dos microrganismos eleva naturalmente a temperatura da massa para cerca de 55°C a 65°C. A temperatura é ideal para eliminar microorganismos que podem causar doenças.
Após essa fase, o composto entra em um período de maturação, quando a temperatura diminui e o material estabiliza. Nessa etapa, o fertilizante ganha cor escura e textura uniforme, sinal de que está pronto para ser peneirado e analisado em laboratório. As análises garantem que o produto atende aos padrões de segurança definidos pelo Ministério da Agricultura, tanto em relação à ausência de contaminantes quanto à qualidade nutricional.
