Se Brasil retaliar EUA, indústria nacional pode sofrer efeito cascata, mostra estudo
29/07/25

REUTERS/Brian Snyder
Entidades que representam os setores exportadores do Brasil, bem como bancos corretoras e consultorias, além de segmentos específicos tem feito contas ara mensurar o tamanho do estrago que uma tarifa linear de 50% sobre as vendas feitas aos Estados Unidos pode trazer os negócios. Mas, embora o país tenha optado pela via da negociação, uma pergunta permanece: o que pode acontecer se o Brasil decidir retaliar a política comercial agressiva de Donald Trump?
Embora faça a ressalva que a hipótese envolve muitas variáveis e nuances a equipe de Macro Research do Banco Inter calcula que a aplicação de uma retaliação baseada na reciprocidade — o Brasil aumentar os tributos de importação de bens vindos da economia americana em 50 pontos percentuais – geraria um “choque tributário” equivalente a 0,17 ponto percentual no PIB brasileiro além do impacto direto já esperado pelas tarifas americanas.
O Inter destaca que esse cálculo se complica quando é considerado que alguns insumos-chave da economia brasileira são majoritariamente importados dos EUA. “Tarifar essas importações pode gerar um efeito cascata por vários setores, particularmente na indústria, que é altamente dependente de insumos intermediários”, alerta o banco, no estudo assinado por André Valério, coordenador de Pesquisa Macroeconômica, e por Gustavo Menezes, assistente de Pesquisa Macroeconômica.
“O impacto macroeconômico, apesar de pequeno, esconde uma ampla dispersão no impacto setorial: 56 dos 66 setores perdem neste cenário, com a indústria química sofrendo um decréscimo de 6,6p.p. na produção seguida por quedas menores porém significativas em outros segmentos da indústria de transformação, que como um todo apresentaria redução de 2,1p.p. no valor agregado”, diz o texto.
Como exemplo, é citado o caso do carvão. Assim, em uma eventual retaliação por reciprocidade, a elevação das tarifas sobre bens americanos em 50 p.p. se traduziria num imposto efetivo de 18,8p.p. no carvão mineral, seguido por diversos produtos químicos e bens de capital que, mesmo não sendo os produtos cuja importação mais depende dos EUA, contam com baixa disponibilidade de substitutos produzidos domesticamente.
Os setores beneficiados em caso de retaliação seriam associados a serviços que pouco dependem de insumos industriais e apresentam ganhos muito menores, associados à mudança de preços relativos na economia que induz substituição no consumo.
Para chegar aos cálculos, o Inter utilizou um modelo capaz de capturar as nuances intersetoriais da economia brasileira para calcular o efeito agregado e desagregado de uma eventual retaliação, levando em consideração possíveis efeitos de segunda ordem, conhecidos no jargão econômico como “efeitos de equilíbrio geral”.
De modo geral, as simulações do estudo apontam que as tarifas são distorsivas para a economia, e sugerem que uma resposta mais benéfica seria justamente maior abertura ao comércio internacional, reduzindo as tarifas cobradas sobre produtos importados.
