Tratamento de efluentes amplia papel estratégico na gestão da água no Brasil
20/03/26

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O Brasil concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Apesar da disponibilidade hídrica, episódios recorrentes de racionamento e reservatórios em níveis críticos expõem limitações estruturais na gestão da água, agravadas por eventos climáticos extremos.
No contexto do Dia Mundial da Água, especialistas apontam a necessidade de ampliar soluções que vão além da captação e distribuição, com foco no tratamento e reaproveitamento de efluentes. A aplicação de princípios da economia circular nesse segmento tem ganhado espaço ao propor a reinserção de resíduos no ciclo produtivo, com potencial de reduzir impactos ambientais e gerar insumos.
Modelos operacionais já adotados no país indicam viabilidade técnica para integrar efluentes industriais ao tratamento de esgoto urbano, com posterior devolução da água tratada aos corpos hídricos. Nesse processo, o lodo gerado pode ser destinado à compostagem e convertido em fertilizante orgânico, apto para uso agrícola. “A gestão eficiente de resíduos líquidos é um passo crucial no enfrentamento dos riscos hídricos. O tratamento inadequado compromete a qualidade da água e impacta o clima, a biodiversidade e a saúde humana. Transformar esses resíduos em insumos reaproveitáveis é essencial”, afirma Lívia Baldo, gestora ambiental que atua em empresa do segmento.
De acordo com a profissional, o aproveitamento do lodo como insumo agrícola ganha relevância adicional diante da instabilidade no mercado global de fertilizantes. Conflitos geopolíticos recentes têm afetado cadeias de suprimento, elevando custos e ampliando a dependência externa.
Nesse contexto, a produção local de adubos orgânicos a partir de resíduos contribui para reduzir a exposição a choques internacionais e ampliar a segurança de abastecimento. “O uso do lodo como matéria-prima reduz emissões e o transforma em ativo ambiental, além de fortalecer a agricultura”, afirma.
Gargalos persistem no saneamento
O avanço dessas soluções ocorre em um cenário de déficit estrutural. O Brasil gera cerca de 5,5 bilhões de litros de esgoto por dia. Embora aproximadamente 83% da população urbana tenha acesso à coleta, apenas entre 50% e 60% do volume é efetivamente tratado, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento.
A lacuna resulta no despejo diário de grandes volumes de efluentes in natura em rios e lagos, com impacto direto sobre a qualidade da água e a saúde pública. No caso dos efluentes industriais, o desafio é ampliado pela diversidade de contaminantes e pelo volume gerado por setores como químico, farmacêutico e alimentício. “O tratamento adequado e a circularidade fecham o ciclo da produção industrial, ao darem destino sustentável aos resíduos. Além de reduzir a poluição, há efeito direto na regeneração do solo e na menor dependência de insumos importados”, pontua Lívia.
Integração entre saneamento e indústria
Experiências de recuperação ambiental em bacias hidrográficas demonstram que a combinação entre tratamento de esgoto, controle de efluentes industriais e gestão integrada pode elevar a qualidade da água ao longo do tempo.
Esses resultados, no entanto, dependem de continuidade operacional, investimento em infraestrutura e coordenação entre setor público e agentes privados. A ampliação do uso de modelos circulares tende a ganhar relevância na medida em que pressões sobre recursos hídricos e custos de insumos agrícolas se intensificam.
