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Universalização do saneamento pode gerar até R$25 bilhões na Paraíba, aponta estudo

02/04/26

Universalização do saneamento pode gerar até R$25 bilhões na Paraíba, aponta estudo

Divulgação

Um estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a EX Ante Consultoria, projeta que a universalização dos serviços de água e esgoto pode gerar até R$ 25 bilhões em ganhos socioeconômicos na Paraíba nas próximas décadas. A análise, que considera o período até 2040, indica impactos diretos sobre renda, produtividade, saúde, mercado imobiliário, turismo e qualidade ambiental, reforçando o saneamento como um vetor estruturante do desenvolvimento no estado — ainda que os resultados dependam da ampliação dos investimentos e da efetiva expansão da cobertura dos serviços.

A pesquisa apresenta uma análise abrangente da evolução do saneamento entre 2000 e 2024 e projeta os efeitos da universalização até 2040. Mesmo com avanços nas últimas décadas — quando cerca de 808 mil pessoas passaram a ter acesso à água tratada e 928 mil à coleta de esgoto — o estado ainda apresenta déficits significativos: 1,7 milhão de pessoas seguem sem acesso à água e 2,6 milhões sem coleta de esgoto, o que representa, respectivamente, 41,3% e 62,8% da população.

“O Instituto Trata Brasil desenvolve esse estudo tanto a nível nacional quanto em diversos estados da federação com o objetivo de mostrar a transversalidade do saneamento básico. A gente quer mostrar que o saneamento é importante e transformar o saneamento em um ativo político. Existe uma percepção histórica de que obra enterrada não dá retorno político, e o nosso objetivo é justamente o contrário: mostrar, com dados concretos, que o investimento em saneamento gera retorno econômico, social e ambiental para a sociedade”, afirma Luana Pretto, presidente executiva do órgão em entrevista ao Paraíba Business.

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Retorno econômico e efeito multiplicador
Os dados do estudo revelam um impacto expressivo na economia estadual. Entre 2025 e 2040, os benefícios da universalização do saneamento devem alcançar R$ 46,2 bilhões, o que supera os custos estimados em R$ 20,7 bilhões e gera um saldo positivo superior a R$ 25,4 bilhões. No longo prazo, considerando o período pós-2040, o legado da universalização pode elevar os ganhos totais para mais de R$ 52,5 bilhões.

Esse desempenho está diretamente ligado ao efeito multiplicador do investimento no setor, que apresenta retorno acima da média nacional. “O investimento em saneamento básico gera um retorno direto: para cada R$ 1 aplicado, obtém-se um ganho de R$ 4,30. Esse impacto reflete-se em uma população mais saudável, com menor incidência de doenças, internações e consumo de medicamentos. Além de elevar a qualidade de vida, essa eficiência reduz custos públicos e estimula o crescimento econômico”, diz a presidente.

Além disso, os investimentos previstos em saneamento, que devem somar cerca de R$ 14,2 bilhões até 2040, têm potencial para gerar R$ 18,3 bilhões em renda direta, indireta e induzida, o que evidencia o impacto do setor na cadeia produtiva.

Renda, produtividade e impacto direto na população
O saneamento também se revela um fator determinante para o aumento da renda e da produtividade. O estudo estima que a expansão dos serviços pode gerar R$ 11,8 bilhões em ganhos relacionados ao aumento da produtividade do trabalho até 2040 .

Na prática, a melhoria das condições sanitárias reduz os afastamentos por doenças e amplia a capacidade produtiva da população, especialmente entre trabalhadores informais.

“O investimento em saneamento reflete-se na saúde e, consequentemente, na produtividade. Para o trabalhador informal, cada dia de enfermidade representa perda imediata de renda. Ao reduzir a frequência de doenças, o saneamento garante mais qualidade de vida, permitindo que esse profissional mantenha sua atividade regular e amplie seus ganhos ao longo do tempo”.

Luana Pretto destaca que a disparidade de renda entre quem possui ou não acesso ao saneamento básico evidencia o impacto direto desse serviço no desenvolvimento. Segundo ela, na Paraíba, a renda média de quem tem acesso ao saneamento é de R$ 2.653, enquanto para quem não tem, o valor cai para R$ 1.321.

A presidente executiva ressalta que essa diferença representa praticamente o dobro do rendimento, o que prova que o saneamento básico vai além de uma obra de infraestrutura, e se torna um pilar fundamental para o crescimento econômico e social.

Outro eixo relevante é a economia gerada na saúde pública. A universalização do saneamento pode resultar em uma redução de mais de R$ 407 milhões em custos com internações e tratamentos de doenças relacionadas à água contaminada até 2040.

“Estamos falando de uma economia significativa com saúde, com menos pessoas internadas, menos uso de medicamentos e menos afastamentos do trabalho. Isso representa um ganho para o sistema público e para a economia como um todo, porque essas pessoas permanecem ativas e produtivas”.

Mercado imobiliário e valorização dos ativos
O impacto do saneamento também se reflete diretamente no mercado imobiliário. A estimativa é de que a valorização de imóveis gere R$ 1,58 bilhão em ganhos no estado até 2040, com uma média de R$ 98,9 milhões por ano.A ausência de infraestrutura, por outro lado, já é um fator de desvalorização, influenciando tanto o preço quanto a liquidez dos imóveis.

“Um imóvel que não recebe água 24 horas por dia ou que está próximo de áreas com esgoto a céu aberto acaba sendo desvalorizado. Seja pela falta de abastecimento, seja pelo mau cheiro ou pela proximidade com rios poluídos, isso impacta diretamente o valor daquele bem”.

Luana Pretto aponta que os dados de mercado reforçam essa disparidade. Segundo ela, o valor do aluguel médio na Paraíba reflete diretamente a presença do serviço: enquanto moradias com saneamento possuem um valor médio de R$ 684, em áreas desassistidas esse valor recua para R$ 377.

Para a presidente executiva do Instituto Trata Brasil, esses números demonstram que o saneamento básico já é precificado pelo mercado, atuando como um fator determinante na valorização imobiliária e no patrimônio das famílias.

Além disso, o avanço do saneamento tende a influenciar estratégias do setor imobiliário e a expansão urbana. “Muitas incorporadoras e construtoras podem usar esse tipo de estudo como indicador estratégico, tanto para tomada de decisão quanto para valorização dos empreendimentos. Informar que um imóvel está em uma área com saneamento ou que terá acesso até determinada data pode ser um diferencial importante”.

Turismo e valorização ambiental
No turismo, os impactos também são expressivos. A melhoria das condições ambientais pode gerar até R$ 1,7 bilhão em ganhos para o setor até 2040 . Atualmente, a falta de tratamento de esgoto ainda compromete a qualidade ambiental de rios e praias.

“Hoje, a gente lança o equivalente a 98 piscinas olímpicas de esgoto bruto por dia na natureza. Esse esgoto acaba chegando aos rios e ao mar, comprometendo a qualidade ambiental e a experiência das pessoas”.

Com a expansão da coleta e do tratamento, o cenário tende a se transformar. “Quando a natureza se regenera, quando as praias estão limpas e preservadas, os turistas voltam mais, indicam o destino e fortalecem o turismo local. Isso gera um efeito positivo em toda a economia.”

Desigualdade regional e potencial de transformação

O estudo também revela diferenças regionais significativas. João Pessoa concentra cerca de 45,3% dos ganhos totais, enquanto regiões como Sousa–Cajazeiras apresentam destaque em termos per capita, com potencial de ganhos superiores a R$ 8 mil por habitante ao ano.

Esse cenário indica maior potencial de transformação em áreas com menor cobertura de saneamento. “Quando a gente tem uma região mais pobre, com baixa cobertura de serviços, o ganho com a chegada do saneamento é muito maior. Isso porque há uma redução imediata de doenças como diarreia e hepatite, o que impacta diretamente a qualidade de vida e a renda dessas pessoas”.

Luana Pretto observa que os efeitos do saneamento são sentidos diretamente no cotidiano das famílias. Segundo ela, a chegada desses serviços transforma rotinas: mulheres, por exemplo, deixam de interromper o sono na madrugada para lavar roupa, uma vez que o fornecimento de água se torna regular.

Além disso, a redução de doenças entre as crianças é um dos principais benefícios, garantindo que as famílias desfrutem de mais qualidade de vida e, consequentemente, ampliem suas oportunidades de desenvolvimento.

Desafios, investimento e universalização
A presidente executiva ressalta que, apesar do potencial de impacto, o avanço do setor ainda depende de um aumento expressivo nos aportes e de maior priorização política. Ela aponta que, atualmente, o estado investe cerca de R$ 90 por habitante ao ano, valor significativamente abaixo dos R$ 225 necessários para atingir a universalização dos serviços.

De acordo com Luana Pretto, o déficit atual é o reflexo direto de décadas de baixo investimento. Ela argumenta que o grande desafio histórico do saneamento no Brasil tem sido a falta de continuidade e de foco governamental ao longo dos anos, o que represou as melhorias estruturais necessárias para o país.

Nesse contexto, as parcerias público-privadas são uma alternativa para viabilizar os investimentos necessários. “Hoje, os Estados têm buscado as parcerias público-privadas como forma de alavancar os investimentos, porque só o recurso público não é suficiente. Mas é fundamental que haja uma regulação forte, técnica e independente para garantir que esses investimentos se traduzem em serviços de qualidade”.

Um motor silencioso de desenvolvimento
Ao consolidar impactos na economia, na saúde, no mercado imobiliário e no turismo, o estudo reforça o papel do saneamento como um dos pilares estruturantes do desenvolvimento.

“O saneamento básico é, sem dúvida, a base para o desenvolvimento econômico e social. Ele impacta tudo: saúde, educação, renda, produtividade e qualidade de vida. Muitas vezes, a população exige acesso à internet, mas não exige acesso à água ou ao tratamento de esgoto. Isso mostra como ainda falta percepção sobre a importância do saneamento. Por isso, a conscientização é fundamental para que essa pauta avance”.

Diante desse cenário, especialistas apontam que ampliar o debate público e acelerar investimentos no setor pode melhorar indicadores sociais e reposicionar a Paraíba em termos de competitividade, atração de investimentos e qualidade de vida.

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